Eu só queria tomar uma limonada
Tudo começou porque eu queria tomar suco de limão.
Eu adoro suco de limão. A Segunda Sobrinha estava comigo e eu pensei que dava para juntar duas coisas: eu tomava meu suco e a gente inventava alguma coisa para fazer.
Aí lembrei daqueles filmes em que as crianças montam barraquinhas de limonada na frente de casa.
— Vamos fazer uma barraquinha de limonada.
Na minha cabeça, era uma brincadeira bem simples.
Aqui em casa mesmo. Colocava uma cadeira, uma mesinha, ela fingia que vendia, eu fingia que comprava e, no fim, eu tomava meu suco de limão.
Era esse o plano.
Só que eu apresentei a ideia para as pessoas erradas.
A Segunda Sobrinha já começou a pensar maior. Para ela, não fazia muito sentido montar uma barraquinha para vender limonada só para mim.
Ela queria clientes.
Pensou no hall do prédio.
A mãe dela entrou na conversa.
E a mãe dela tem uma característica: ela aumenta as coisas.
Ela diz que a culpa é minha. Até hoje diz.
Eu discordo.
Eu posso até começar a confusão, mas são ela e a filha que pegam uma ideia pequena e transformam em evento.
— Vamos fazer na pracinha.
Pronto.
A barraquinha que, cinco minutos antes, existia na minha cabeça com uma cadeira dentro do apartamento agora precisava de logística.
Meu pai, o avô dela, entrou no projeto. Arranjou mesa e cadeiras. Tinha bata, toquinha e essas coisas de comida. A Segunda Sobrinha também tinha uma bata e uma toquinha pequenininhas da escola.
Daqui a pouco estavam os dois vestidos, de toquinha e bata, bonitinhos, prontos para trabalhar.
A gente foi para a pracinha.
Abrimos os cofrinhos que tínhamos para pegar moedas. Fizemos a limonada e levamos tudo.
A mãe dela olhou para aquilo e decidiu que ainda estava simples demais.
— Quem comprar um copinho pode ganhar um churrosinho.
E lá foram aqueles churros pequenos para acompanhar a limonada.
Nesse ponto, eu já tinha perdido completamente o controle da minha própria ideia.
Eu queria suco de limão.
Agora existia uniforme, mesa, cadeira, praça, cliente, moeda, brinde e atendimento.
A Segunda Sobrinha estava adorando.
De luvinhas, servia a limonada, recebia as moedas e colocava o dinheiro no cofrinho. Meu pai ficava por perto ajudando com os copos, com o dinheiro e com o que mais precisasse.
Ela estava se sentindo rica.
E eu estava muito satisfeita porque, apesar de toda a proporção que aquilo tinha tomado, finalmente estava cumprindo o objetivo inicial.
Tomar minha limonada.
Peguei minhas moedas e comprei um copinho.
Depois outro.
Depois outro.
Também demos moedas para algumas crianças que estavam por ali, para elas poderem comprar. Elas chegavam, entregavam o dinheirinho, recebiam a limonada e o churrosinho, e a dona do estabelecimento seguia muito séria com os negócios.
Até que fui pedir mais um copo.
A Segunda Sobrinha olhou para mim.
— Não, Tia Roma.
Eu não entendi.
— Como assim, não?
— Você tem que deixar pros outros, Tia Roma. Tem que saber dividir. Se eu te vender, não vai sobrar pros outros.
Todo mundo começou a rir.
Eu tinha inventado a brincadeira.
Eu tinha ajudado a abrir os cofrinhos.
Eu tinha participado da montagem.
Eu era, inclusive, a razão original de existir limonada naquele dia.
Nada disso sensibilizou a administração.
Fiquei sem a quarta limonada.
Tomei três copinhos pequenos.
O resto era para os outros.
E foi assim que uma ideia criada porque eu queria tomar suco de limão terminou comigo sendo cortada pela própria dona da barraquinha por falta de espírito de partilha.
Essa é uma das histórias de O Amor de Tia.
Um livro sobre crianças que crescem, adultos que entram nas brincadeiras, famílias que transformam qualquer ideia simples numa operação de médio porte e as muitas formas de ser tia.
E, aparentemente, também sobre aprender que ser a tia não dá direito a limonada ilimitada.
Quer conhecer as outras histórias?
O Amor de Tia — Um livro sobre as muitas formas de ser tia.
