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O que as pegadas estavam tentando contar?

Foto do escritor: Romany Oliveira
Romany Oliveira
29 de set.
2 min de leitura

Na floresta, minha mãe me ensinou uma coisa antes mesmo de eu aprender a subir nas árvores mais altas:

— Repare na floresta.

Eu achava uma orientação estranha.

Reparar em quê?

Nas árvores?

Nos bichos?

No chão?

— Em tudo — ela dizia. — A floresta costuma avisar antes que alguma coisa aconteça.

Demorei para entender.

Depois descobri que um galho quebrado podia dizer que alguém tinha passado por ali. Folhas remexidas podiam contar que alguém estava escondido. Um silêncio repentino podia ser mais importante do que qualquer barulho.

E pegadas...

Pegadas eram histórias escritas no chão.

Naquele ano, a seca chegou forte.

Os riachos diminuíram, as frutas ficaram mais difíceis de encontrar e até os animais que conheciam bem a floresta precisaram andar mais para conseguir comida.

A Onça também.

Ela era uma excelente caçadora.

Sabia esperar.

Sabia se esconder.

Sabia exatamente quando correr.

Mas até uma boa caçadora tem dificuldades quando a floresta muda.

Foi então que começaram os comentários.

— Você soube da Onça?

Eu estava comendo uma fruta quando ouvi.

— O que aconteceu?

— Está muito doente.

Disseram que ela mal conseguia sair da toca.

Depois disseram que talvez estivesse ferida.

No dia seguinte, a Capivara resolveu visitá-la.

Não voltou.

Achei estranho.

Mas a floresta era grande. Talvez tivesse seguido para outro lugar.

Depois foi o Tatu.

Também não voltou.

Então o Quati decidiu passar por lá.

E também desapareceu.

Foi quando parei de achar que era coincidência.

Eu queria descobrir o que estava acontecendo.

Mas minha mãe havia me ensinado outra coisa importante:

coragem não é entrar correndo em um lugar perigoso só porque você quer uma resposta.

Então esperei.

Na manhã seguinte, quando havia luz suficiente para enxergar bem, fui até a região onde ficava a toca da Onça.

Não cheguei perto.

Fiquei onde as árvores ainda podiam me proteger.

Olhei para a toca.

Nada.

Olhei para as pedras.

Nada.

Olhei para os arbustos.

Nada.

Por alguns segundos, pensei que talvez todos estivessem certos.

Talvez a Onça realmente estivesse doente.

Então me lembrei:

Repare na floresta.

Baixei os olhos.

E foi aí que vi as pegadas.

Havia marcas da Capivara.

Do Tatu.

Do Quati.

E de outros animais.

Muitas pegadas.

Todas seguiam na mesma direção.

Entrei um pouco mais entre as folhas para enxergar melhor.

Contei novamente.

Foi então que percebi o problema.

Havia muitas pegadas entrando na toca.

Mas nenhuma saindo.

E agora?

O Macaco já encontrou a pista.

Mas perceber o perigo e escapar dele são duas coisas bem diferentes.

O Macaco e a Onça é uma das histórias de A Floresta das Histórias: Caminhos, o segundo volume de uma coleção em que cada animal conhece uma pequena parte do mundo — e precisa aprender a observar, ouvir e compreender aquilo que os outros também têm a ensinar.

Porque, às vezes, a resposta não está escondida.

Ela está no chão, esperando alguém prestar atenção

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